4 de setembro de 2013

Ruídos

De noite inclino-me, inclino-me e deixo-me cair
com este cabelo e o sistema nervoso descompostos,
caio de cansaço, de dor, de sono...
Sou uma mentira que diz sempre a verdade.

Fecho os olhos, procuro adicionar à escuridão do quarto
a escuridão das minhas entranhas.
Agrada-me a ideia de que, através deste simples gesto
pudesse harmonizar o interior e o exterior,
é como se as trevas em que o quarto mergulha
e as que dentro de mim se desprendem
fossem de uma só natureza.

De certa forma deixo de ter corpo,
ou pelo menos um corpo exterior,
sem luz posso finalmente reduzir-me
e ficar atento aos ruídos da noite.
Esses ruídos, que em meu entender
são um modo da distância se exprimir,
momentos de puro sossego
que por si só, proporcionam um belo prazer.

A transformação que as trevas provocam no meu corpo
quando o ouvido se aproxima do coração,
é como se essas mesmas trevas
assimilassem e reproduzissem
o espaço existente entre o interior e o exterior.

Esses ruídos que surgem dentro de mim
e que os sentidos parecem identificar
só porque habitam este corpo,
circulam em ambos os sentidos
até que lhes anulem os limites.

“Tantas vozes fora de nós!
e se somos nós quem está lá fora!”
...
Vento

13 de agosto de 2013

A lenda do vento

No canto mais escuro
onde vivem as outras cores
o homem inquieto
consegue  ouvir
as vozes silenciosas
da cidade impura.

As vagas de fogo
das marés negras
que envolvem a cidade
deixam pegadas na areia,
é assim a noite de todas as almas
é assim a lenda do vento.

Quando anoitece
reaparecem os corpos,
falam do além
e das ligações invisíveis
que existem
para além da luz
provenientes
da ilha dos desejos.

Navegam
à sombra do silêncio
e finalmente
no reflexo do espelho
consigo ver
o rosto da máscara.
Deus…
Ninguém me conhece como tu.
...
Vento

15 de julho de 2013

Gosto do teu olhar


 
Gosto da melancolia dos teus olhos
quando me olhas na noite,
acompanha-te uma brisa fresca
que me toca pelos espaços abertos do teu corpo,
perco-me na carícia dos teus gestos
que vieram ao encontro dos meus silêncios.

Gosto desse teu modo calmo, sossegado
com que te encostas no meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente parado
e o teu mundo fosse delimitado
pelos meus braços...  

Gosto da tua voz,  tranquila, de tom suave,
com que falas, como se acariciasses
cada palavra que dizes...
A tua presença é um infinito sossego,
um pedaço de sombra onde me abrigo.


Sem ti....
Sou náufrago, entregue à sorte do desnorte,
personagem sem rumo que subitamente
se torna distante..


...
Vento

4 de julho de 2013

Mais...

 ...

Mais do que a escrever
é muitas vezes a ler
que acalmamos a força dos fantasmas
e enchemos os vazios dos baús assombrados
e calamos as vozes, tantas,
que zumbem por dentro. 
...
Vento

1 de julho de 2013

Os corações tremem

Na balada das distâncias
existe uma luta noite e dia,
foi esse o caminho escolhido
na breve passagem pela vida
que o pobre filósofo
fez a abordagem sobre a sua existência.

No meio da revolução
vinda do vazio
algo ajuda a aquecer
o coração gelado.
Da escuridão
sobra uma ténue luz
e um cheiro doce envolvente.

As ideias fragmentadas
navegam pelo rio dos fantasmas,
aquele rio límpido que circunda as montanhas
e que desce até à planície.

Os corações tremem
esperam pela dor que ainda não chegou,
entretanto as borboletas brilhantes
voam sobre a planície verde
ignorando o vermelho vivo
que brota das flores
ou os vidros partidos
de uma janela abandonada.

Os pássaros noturnos
empurram a luz do céu para longe,
o mundo adormece finalmente
nos braços
de um lago branco,
são palavras assim tão delicadas
que preenchem a alma.
...
Vento